Autor: Dr. Peter Riddell


1. O que você precisa saber

Com o Islã em voga nas notícias desses dias, mais e mais questões estão sendo feitas acerca o texto sagrado do Islã: o Corão. Parece que pastores, políticos e até presidentes, de repente, têm algo a dizer acerca do Corão e do Islã. Porém, adquirir um entendimento dos ensinos do Corão leva mais do que uma leitura rápida nas manchetes de jornal. Isso requer leitura do texto do Corão obviamente, mas também requer um entendimento dos contextos literário, social e histórico do Corão. Esse guia dá 10 elementos centrais para ajudá-lo a começar a entender o Corão.

2. É cerca do mesmo tamanho do Novo Testamento

À parte dessa similaridade, o Corão também é dividido em versos e capítulos. Entretanto, os capítulos dele não são arranjados de acordo com estilo ou autor; nem são ordenados cronologicamente. Em vez disso, são organizados mais ou menos de acordo com o tamanho, começando com o maior e terminando com o menor. Outra forma de dividir o Corão é pelo juz, ou seção; a obra é dividida em 30 seções. Durante o Ramadã, muçulmanos devotos leem uma seção para cada noite do mês de jejum. Enquanto todos os muçulmanos terão lido algo do Corão, alguns especialistas memorizam todo o texto e são aptos para recitá-lo, começando de qualquer ponto do texto. A recitação do Corão é uma forma artística no mundo muçulmano, até mesmo em países de língua não-árabe, onde o orador pode não entender cada detalhe do que está recitando.

3. Os capítulos refletem períodos na vida de Maomé.

Alguns capítulos vêm do período do seu ministério na Meca (610-22) e o restante vêm do seu ministério na cidade de Medina (622-32). Durante o primeiro período, seu papel foi principalmente como um protetor contra as autoridades, com papéis que incluíam o de profeta, líder político, autoridade legal e guerreiro. Quando você lê o Corão pela primeira vez, é melhor seguir algumas das cronologias. Os diferentes sistemas cronológicos variam de formas relativamente menores. A vantagem de ler o Corão cronologicamente é que torna mais fácil seguir a progressão na vida de Maomé e seu pensamento.

4. Revogação está no centro de muitos debates

Um importante princípio do Corão é que, de forma geral, os versos posteriores revogam ou substituem os anteriores onde a mensagem central difere. Apesar de ser um assunto complexo – eruditos muçulmanos debatem quais versos revogar – esse é um tema importante para muçulmanos decidirem como relacionar o Corão com o mundo atual. O conceito de revogação é outra razão pela qual é importante entender a cronologia dos capítulos do Corão.

5. Maomé não é tido como o autor do Corão

Muçulmanos acreditam que a mensagem foi transmitida pelo anjo Gabriel através de Maomé durante um período de 23 anos. Muçulmanos não consideram que Maomé escreveu – ou de qualquer forma influenciou – o texto do Corão. Ele simplesmente serviu como um tipo de teclado, recebendo a mensagem e passando adiante em palavras para seus companheiros que memorizaram a mensagem. Muçulmanos acreditam que por volta de 20 anos depois de Maomé morrer, Califa Uthman ordenou a escrita do Corão em formato de livro por causa da morte daqueles que tinham memorizado a mensagem de Maomé.

6. O Corão é imutável

O conceito de um texto desenvolvido, que levou séculos para canonizar através de um processo de debates eruditos, é alheio à crença ortodoxa islâmica. Não obstante, eruditos que não são islâmicos revisionistas estão desafiando cada vez mais essa visão padrão do Islã. Eles estão esboçando novos métodos de pesquisa de manuscritos e evidências históricas, assim como princípios de criticismo textual desenvolvido pela Bíblia, para oferecer algumas visões radicalmente diferentes acerca do texto do Corão.

7. Seja respeitoso com o texto

Você nunca deve escrever ou sublinhar o Corão na companhia de muçulmanos. Isso é devido à alta visão dos muçulmanos acerca do texto físico do Corão e o que ele representa ao ser as palavras exatas de Alá. De forma semelhante, o Corão nunca deveria ser deixado no chão ou colocado sob outros livros quando muçulmanos estão presentes. Desenvolver boas práticas como essas mostra respeito a nossos amigos muçulmanos. Ao interpretar o Corão é importante considerar os versos individuais com seu contexto, em vez de simplesmente arrancar versos aleatoriamente; isso é um importante princípio na interpretação bíblica também.

8. Entender o Corão para muçulmanos necessita de literatura adicional

O conjunto de textos adicionais é representado pelo Hadith, ou tradições proféticas. Tais textos relatam as declarações de Maomé e suas obras, tornando mais fácil para muçulmanos seguirem o exemplo do profeta em termos de detalhes para a vida. Adicionalmente, há muitos comentários sobre o Corão, com vários em inglês. Textos legalizados também são importantes para consulta no entendimento do Corão. As histórias também fazem um papel importante em preencher os detalhes do ensino do Corão para muçulmanos que estão procurando por formas de seguir sua fé.

9. Interpretar o Corão é um assunto de grande debate ente muçulmanos

Uma parte essencial para essa razão é que muitos dos versos do Corão são ambíguos. Além do mais, muçulmanos debatem se certos ensinos do Corão são relevantes para todos os tempos, ou tiveram uma aplicação fixa no tempo. Métodos de interpretação variam de níveis de erudição para níveis de aplicação mais pessoal, com o último se tornando bem mais difundido na era digital. Essa diversidade entre muçulmanos em seu entendimento dos ensinos centrais do Corão e seus princípios podem prover um foco interessante de diálogo entre cristãos e muçulmanos.

10. Interpretações podem ser pacíficas ou violentas

Uma área essencial de debates entre muçulmanos na interpretação do Corão ocorre com versos relacionados à Jihad. Alguns muçulmanos são literalistas, vendo os versos como um chamado para confrontações violentas tanto com oponentes muçulmanos e não muçulmanos. Outros tomam uma abordagem metafórica, argumentando que tais versos chamam muçulmanos a serem devotos em sua fé; eles pensam que um entendimento literal deveria ser relegado das páginas da história.


1 Traduzido de http://www.zwemercenter.com/guide/10-things-you-should-know-about-the-quran/

Dr. Peter Riddell tem um Ph.D. Na Exegese Alcorânica e tem sido um erudito do Alcorão por mais de trinta anos. Fundador de dois Centros de Estudos Islâmicos e Relações Muçulmano-Cristãs: Centro de Estudos Islâmicos (CIS) na Escola de Teologia de Londres e Centro para o Estudo do Islã e Outras Religiões (CSIOF) na Escola de Teologia de Melbourne. Ele é o Vice-Diretor Acadêmico da Escola de Teologia de Melbourne (MST). Ele é também professor adjunto da Columbia International University.